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Parceria com empresas é importante para arquitetura em SP, diz jornalista

Para voltar a ter uma grande arquitetura, como nas décadas de 1950 e 1960, período em que foram construídas obras como Edifício Copan e Conjunto Nacional, a cidade de São Paulo precisa que arquitetos e urbanistas, empresários e o poder público se unam para desenvolver projetos em parceria.

A afirmação é do repórter especial da Folha Raul Juste Lores, que conta que o divórcio entre a arquitetura e o mercado imobiliário na cidade vem dos anos 1950, ainda no início da Guerra Fria. "Muitos arquitetos ligados à academia, que estavam no campo de influência soviética da guerra, atacavam abertamente colegas da arquitetura privada", explica.

Segundo ele, devido a essa divisão, obras de grandes arquitetos que trabalharam para empresas privadas, acabaram sendo esquecidas. "Mas isso já começa a melhorar e eles vêm se reconciliando", diz.

Lores participou nesta quinta-feira (18) de debate, ao lado do apresentador Marcelo Tas, para marcar o lançamento de seu livro "São Paulo nas Alturas"(Três Estrelas, 340 págs.). O encontro foi no auditório do Unibes Cultural. Na obra, o jornalista fala sobre a arquitetura modernista e a construção de alguns dos prédios mais conhecidos da cidade.

Lores diz que a mudança no perfil demográfico, além de fazer aumentar a ocupação do espaço público, seguindo o exemplo de cidades como Paris e Tóquio, tem favorecido a construção de moradias cada vez menores e melhor localizadas em São Paulo.

"Muita gente prefere estar bem localizada em um apartamento de 20 m² do que morar no fim do mundo em uma casa grande", afirmou. "Torço para que as próximas gerações se sintam constrangidas de morar como Maria Antonieta, em casas enormes."

Segundo ele, essa mudança acontece porque os jovens querem ter lugares para se encontrar com amigos de forma fácil e espontânea. O fato de a classe média começar a ocupar esses espaços teria colocado o tema em pauta e gerado uma pressão sobre o poder público para investir na área.

Lores criticou bairros como Alphaville, em São Paulo, e a Barra da Tijuca, no Rio, onde a vida é "em setores" e voltada para o uso do carro. "A vida legal é a vida misturada, a vida em que você pode todo dia ir tomar um café na esquina."

PASSEIO POR SÃO PAULO

De acordo com o jornalista, o fato de ter caminhado muito pelas ruas desde a juventude, que passou na cidade de Santos, e ter morado em lugares diferentes, fez com que desenvolvesse um olhar apurado e mais crítico sobre a arquitetura da cidade.

"Continuo olhando para São Paulo como o caiçara deslumbrado pela cidade grande", contou. "Mas, quanto mais você anda e descobre cidades pelo mundo, percebe que São Paulo, apesar das enormes qualidades, te deixa anestesiado à feiura e à desfuncionalidade."

No debate, Marcelo Tas levantou as dificuldades encontradas pelos pedestres paulistanos. "As calçadas de São Paulo são um capítulo trágico. Na cidade, a gente é muito pouco convidado a caminhar", disse o apresentador, que pediu sugestões de passeios a pé pela cidade.

Para Lores, algumas das melhores opções são as galerias do centro, como a Metrópole, Califórnia, Presidente e do Rock. "A Galeria do Rock é um lugar em que você olha para a cidade e a cidade te olha", afirmou. "É diferente de um shopping center típico, que é aquele caixotão fechado. Na galeria, cada andar é um monumento ao voyeurismo."

O centro, segundo Lores, tem uma reputação pior do que merece e, apesar da sujeira e má conservação, possui alguns dos melhores exemplos da arquitetura de São Paulo. Ele louvou a resistência de prédios paulistanos, como o Copan e o Conjunto Nacional, que tiveram momentos de decadência e crise, mas depois voltaram a ser relevantes no cenário da cidade. "Quando a arquitetura é muito boa, eles voltam, eles têm resiliência".

Redação Original, Folha de São Paulo.


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