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Retrofit: renascimento e preservação do antigo

 

Iberê Campos
Termo novo no mundo da construção e arquitetura, o retrofit vem ganhando cada vez mais espaço. O termo em inglês nada mais é do que a popular “reforma”, mas com um sentido de customizar, adaptar e melhorar os equipamentos, conforto e possibilidades de uso de um antigo edifício. A ideia principal é renovar e atualizar, mantendo as características intrínsecas do bem retrofitado. Não se trata simplesmente de uma reconstrução, e sim do renascimento, aliado ao conceito de preservação da memória e da história.

A prática surgiu e se desenvolveu na Europa e já é muito usada nos Estados Unidos. Locais em que a rígida legislação não permitiu que o rico acervo arquitetônico fosse substituído, abrindo espaço para o surgimento desta solução que preserva o patrimônio histórico ao mesmo tempo em que permite a utilização adequada do imóvel. No Brasil, ela ainda é recente, mas uma gama de profissionais já percebeu a sua importância e busca torná-la cada vez mais usual em nosso país.

O Obra24Horas entrevistou o arquiteto, professor convidado do Centro Universitário Belas Artes, consultor e fundador do IBDA (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento da Arquitetura), Iberê Campos, para entender melhor dessa nova ferramenta e como empregá-la.

Obra24Horas: Quando surgiu o conceito retrofit e quando ele começou a ser usado no Brasil?

Iberê M. Campos: Antes de mais nada, acho importante diferenciar retrofit de reforma e restauração. Uma restauração pretende levar um edifício deteriorado às mesmas formas e materiais que já teve em algum ponto do passado, geralmente na época de sua construção ou de uma época áurea, mas geralmente sem alterar seus equipamentos ou usos. A reforma visa substituir partes do edifício que precisem de reparos ou de atualização, mas sem qualquer preocupação quanto ao passado da edificação, podendo acrescentar ou retirar áreas conforme a utilização futura do edifício. Já o retrofit tem um pouco da reforma e da restauração, ou seja, um edifício antigo é reequipado e restaurado, e em geral seu uso vai mudar. Por exemplo, um edifício de apartamentos vira hotel, ou então uma residência vira loja e assim por diante.

Em toda a história da humanidade sempre se construiu e também se fez reformas e readequações de edifícios, portanto podemos dizer que o retrofit sempre este presente. No entanto, o rótulo com o nome "retrofit" surgiu aproximadamente nos anos 90. O termo "retrofit" veio da junção das palavras "retro", que em latim significa "para trás", e do inglês "fit", que significa adaptação ou ajuste. O conceito associou-se, originalmente, à atualização de equipamentos e sistemas obsoletos, para que pudessem ser reaproveitados. Adaptando-se esta ideia para o ramo do projeto e construção, o retrofit designa a operação de modernizar edificações deterioradas permitindo assim sua reinserção num processo normal de uso. Na Europa e nos Estados Unidos o processo de modernização dentro do conceito de retrofit vem acontecendo a partir da década de 1990, e no Brasil também vendo sendo progressivamente utilizado um pouco mais tarde.

Obra24Horas: Quais as suas vantagens na construção civil e arquitetura?

Iberê M. Campos: A vantagem do retrofit é o reaproveitamento de edificações, principalmente as que têm valor histórico ou sentimental para uma determinada coletividade. Nem sempre o retrofit é a opção mais barata, muitas vezes sairia mais barato derrubar um prédio e construir um novo, a partir do terreno limpo. No entanto, esta opção demanda mais tempo, pois é preciso demolir o prédio antigo e começar uma obra nova a partir das fundações, o que tem um grande impacto no meio urbano, pois é preciso transportar todo o entulho retirado da demolição e depois transportar um peso equivalente em materiais novos, que farão parte da nova construção. Existe também a agressão ao meio ambiente, tanto para absorver o entulho quanto para fornecer os novos materiais do edifício novo, ou seja, o retrofit é amigo tanto do tecido urbano quando da ecologia como um todo. As empresas e organizações que investem em retrofit ganham, portanto, no menor tempo para reaproveitar edificações, ao mesmo tempo em que ganham uma imagem positiva junto à coletividade por terem optado por agredir menos o meio ambiente e terem colaborado para manter um bem cultural.

Obra24Horas: Onde e como essa técnica pode empregada?

Iberê M. Campos: Obviamente, existem edifícios que ficaram tão deteriorados que sua restauração estaria mais ligada à arqueologia do que à arquitetura propriamente dita. Considerando-se, portanto, edifícios que tenham pelo menos sua estrutura preservada ou restaurável, podemos dizer que o retrofit pode ser empregado à vontade. Mas devemos novamente diferenciar "retrofit" de "reforma" ou "restauração". Uma restauração vai simplesmente fazer os reparos necessários para que uma edificação volte à sua forma original, tal como foi idealizada e construída originalmente, sem grandes modificações quanto às técnicas construtivas ou à readequação dos ambientes. A reforma pode ser também uma restauração, mas geralmente abrange modificações na planta e nos equipamentos dos ambientes, mas sem grandes mudanças quanto ao uso do prédio e seus locais. O retrofit abrange tudo isto e mais, porque pressupõe não só um restauro, mas também e principalmente o reequipamento do prédio, adicionando itens não presentes no projeto original como ar condicionado, elevadores, escadas rolantes, sanitários ou cozinhas. E, o item mais importante, um retrofit pressupõe que o edifício vai mudar de função. Um prédio de escritórios, por exemplo, pode ser transformando em um hotel, uma velha fábrica pode virar um shopping center e uma residência pode vir a ser uma loja, museu ou centro cultural.

Obra24Horas: Como ela vem praticada em nosso País?

Iberê M. Campos: Os limites entre reforma, restauração e retrofit não são perfeitamente delimitados e em toda nossa história recente estas três técnicas vem sendo utilizadas. O retrofit, em especial, só ganhou este nome nas últimas duas décadas, mas existem exemplos anteriores a isto que podem ser caracterizados como sendo um retrofit. O próprio prédio onde está a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) pode ser um exemplo de retrofit já nos anos 40. O prédio da tradicional família Penteado foi doado em 1938 com o intuito declarado de montar ali uma faculdade de arquitetura, sendo que sua mudança de uso de residência para escola demorou quase dez anos. De lá para cá muitos edifícios vêm sendo restaurados, reformados e readaptados, e antes disto também o retrofit já era praticado, mas não com este nome e certamente não com a mesma preocupação com ecologia e sustentabilidade que temos hoje.

Obra24Horas: Quais valorizações podem ter um imóvel que passam por esse processo?

Iberê M. Campos: É difícil mensurar o valor que um patrimônio histórico, cultural ou sentimental tem para cada pessoa e cada comunidade. Quanto vale o prédio do Museu do Ipiranga? Quanto vale o casarão da Família Penteado? Não estou falando do valor do terreno e benfeitorias, isto qualquer corretor pode avaliar, estou me referindo ao valor sociocultural, à simbologia embutida em edificações que por um motivo ou por outro fizeram parte da história. Além deste valor imaterial, um imóvel que estava deteriorado e volta à ativa certamente tem sua valorização, em muitos casos o valor do imóvel em si será maior do que se fosse um imóvel totalmente novo, que ainda não tem uma história ligada a ele. Se o retrofit for bem feito, o edifício passa a concorrer de igual para igual, em termos  de adequação, a qualquer edifício novo. É a mesma coisa que acontece no mercado de arte, dois quadros igualmente bem feitos, em termos técnicos, terão valores totalmente distintos só porque um deles foi feito por um pintor famoso ou por ter uma história ligada a ele.

Obra24Horas: Qual o limiar entre retrofitar um imóvel e manter sua originalidade arquitetônica?

Iberê M. Campos: Isto vai depender do valor que tiver a originalidade arquitetônica. Se for um edifício tombado pelo patrimônio histórico a originalidade precisará ser mantida ao máximo possível, mas se o edifício estiver muito deteriorado ou se não for uma obra tombada então a originalidade arquitetônica não precisará ser mantida tão intacta, apenas o suficiente para tirar proveito estético, sentimental e histórico do antigo edifício. Pode-se, por exemplo, preservar alguns elementos como paredes, portões e jardins, enquanto o resto será modernizado, ou então, pelo lado oposto, se for para preservar ao máximo, pode-se restaurar o edifício histórico e adicionar-se outro bloco a ele, com arquitetura moderna, porém de acordo com o antigo. Neste caso, existem dois caminhos possíveis a serem tomados: as partes novas podem seguir o mesmo estilo do antigo, ou então as partes novas devem ser tão diferentes do antigo que fique bem claro o que é novo e o que é antigo, claro, sempre respeitando padrões estéticos e funcionais do novo edifício, que precisará atender às novas funções que passará a abrigar.

Obra24Horas: Qualquer imóvel pode passar por esse processo? O que é preciso antes de executá-lo?

Iberê M. Campos: A princípio, qualquer edificação pode ser modificada segundo os princípios do retrofit. A questão é determinar exatamente quais são os objetivos, ou seja, se é importante manter a história e estilo do local, se é um prédio tombado ou não, se é interessante economicamente, se existem objetivos de sustentabilidade a serem alcançados e por aí afora. Devo deixar bem claro que qualquer construção precisa ser planejada, projetada nos mínimos detalhes, para poder fazer um cronograma físico-financeiro correto. E isto é tão mais verdadeiro quando se cogita do retrofit, pois além dos cuidados normais em qualquer projeto e construção é preciso avaliar a história do edifício, seu valor sentimental, as técnicas usadas na construção, o entorno, sua implantação urbana e a disponibilidade de recursos na região que permitam recuperar o que se foi perdido ao longo dos anos. Ou seja, num retrofit, ainda mais do que numa construção qualquer, a pesquisa, o projeto e o planejamento devem ser muito mais apurados, cuidados e detalhados.

Obra24Horas: É preciso alguma especialização do profissional para retrofitar?

Iberê M. Campos: Com certeza. Não só o arquiteto, mas também o responsável pelas obras deve ter amplo conhecimento de como usar não só as técnicas modernas mas também as antigas, da época da construção do edifício original. É preciso conhecer também a parte histórica e social relacionada ao edifício, ao seu uso e ao valor que ele tem para a cidade e para a comunidade local. É fácil perceber que um profissional assim qualificado não surge de uma hora outra, são muitos anos de estudo e experiência para formar um arquiteto que conheça as técnicas atuais, e mais alguns anos para que ele esteja qualificado para dirigir ou participar de uma equipe de retrofit. Posso dizer que é muito mais fácil começar uma obra nova, do zero, do que reaproveitar um edifício antigo, principalmente se estiver tiver valor histórico. Qualquer reforma é mais complicada do que uma obra nova, e no caso de edifícios antigos, onde a ideia é preservar, a tarefa torna-se mais difícil.

Obra24Horas: Os profissionais brasileiros já sabem empregar a técnica ou ainda falta mão de obra especializada?

Iberê M. Campos: Desconheço pesquisas a respeito, mas pelo meu convívio com os colegas e pelo que vejo na imprensa especializada acredito que existam, sim, muitos arquitetos capacitados a planejar e dirigir um retrofit. E, também pelo que escuto por aí, a mão-de-obra especializada para as obras acaba sendo o grande entrave. Imagine o seguinte: se já faltam profissionais para executar obras comerciais, comuns, imagine então encontrar um pedreiro, pintor ou marceneiro que conheça os materiais e técnicas utilizadas muito antes do nascimento deles, e que consigam trabalhar pensando no detalhe e na qualidade e não na quantidade ou quantidade de metros produzidos.

Obra24Horas: Em sua opinião, qual o futuro do mercado de retrofit em nosso País?

Iberê M. Campos: O Brasil é um país que tem características específicas. Ao mesmo tempo em que o país está, ao meu ver, involuindo no quesito educação, saúde e segurança, atividades ligadas diretamente ao estado, por outro lado tem uma classe média e alta que tem frequentado habitualmente outros países, em especial na Europa, sem falar que existe uma elite cultural cada vez maior e bem informada. Desta forma, o que eu penso é que independentemente da precariedade dos serviços públicos, aos poucos está se criando uma mentalidade propícia a valorizar os bens culturais e naturais. Neste aspecto, o retrofit é uma ferramenta adequada a preservar e revitalizar nossas cidades, tão sofridas com contínuos desmandos públicos que resultam no caos urbano que estamos vivendo. Eu acho que a consciência do retrofit já existe e, portanto, na medida em que formos formando profissionais especializados e o governo ajudar, ao invés de atrapalhar quem deseja preservar um patrimônio, então o retrofit será cada vez mais utilizado.

Obra24Horas: Alguma outra informação que achar importante.

Iberê M. Campos: O brasileiro tem muito em mente a figura da "reforma" de edificações. É comum as pessoas reformarem suas casas, os governos reformarem os edifícios públicos e as empresas reformarem suas sedes. Se estas reformas forem melhores dirigidas, boa parte delas poderia deixar de ser simples reforma e incorporar conceitos do retrofit. Todo mundo poderia beneficiar-se desta mudança de paradigma.

 

 

Entrevista concedida à jornalista Érica Nacarato, redatora do Portal Obra24horas.

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