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Construção e arquitetura também influenciam no trânsito das grandes cidades

 

Itamar Berezin

Tema cada vez mais recorrente nas discussões de diversos setores, o problema do trânsito nas grandes cidades é apontado como resultado de diversos fatores, entretanto, o que muita gente não se atentou ainda, é que o setor da construção e arquitetura, influencia não somente no crescimento das metrópoles, mas, também, na quantidade de carros que circulam nelas.

Defensor dessa tese, Itamar Berezin, especialista em empreendimentos de grande porte e à frente do escritório que leva seu nome, acredita que, buscando atender o grande crescimento da frota de carros em cidades como São Paulo, escritórios de arquitetura e construtoras têm projetado prédios que contemplam um número maior de vagas por exigência da legislação, agravando ainda mais a já complicadíssima situação do trânsito.

Somado a isso atualmente há um crescimento horizontal da capital paulista em função do atual plano diretor municipal, e não da verticalização com edifícios, como muitos acreditam. “São Paulo tem menos de 20% de seu território verticalizado. Com um mercado imobiliário altamente inflacionado, tanto em novas unidades como usados, as pessoas são obrigadas a sair da região central da metrópole, em função dos altos preços praticados. Temos, então, um “congelamento” da cidade e uma redução do seu crescimento, já que a maioria das pessoas está cada vez mais obrigadas a procurar alternativas fora de São Paulo, vindas à capital somente para trabalhar, fazer compras, cumprir compromissos. Isso causa um aumento da circulação de carros diariamente e, consequentemente, maiores congestionamentos, mais poluição do ar e uma significativa diminuição da qualidade de vida”, diz Itamar.

Para entender melhor a visão do profissional e ainda tentar visualizar soluções para o problema, confira a entrevista com Itamar Berezin.

Obra24Horas: Como o setor da construção e arquitetura influencia na quantidade de carros que circulam nas grandes metrópoles?

Itamar Berezin: As novas construções seguem  exigências legais, e a legislação atual tem regras generalizadas sobre o número de vagas para qualquer tipo de construção. O correto seria que o plano diretor também ditasse regras diferenciando regiões com exigência de menos vagas de acordo com cada área. Por exemplo, aquelas que são bem servidas de transporte urbano, que possuem linha de metrô por perto ou regiões centrais.

Obra24Horas: Órgãos governamentais solicitam, quase sempre, a construção de garagens com um número maior de vagas. Isso, na sua visão, é um problema?

Itamar Berezin: Sim, pois isto causa o aumento da circulação de carros nas cidades, aumentando os congestionamentos, a poluição do ar, sem falar da significativa diminuição da qualidade de vida. Se há mais vagas em um destino, mais carros estarão se deslocando. Por isso, acredito que precisamos rever este conceito e, claro, de mais transporte urbano, ciclovias, buscando o adensamento em áreas em volta das linhas de metrô. Isso seria uma boa solução.

Obra24Horas: Se as construtoras deixassem de reservar um grande espaço para carros em prédios, você não acredita que o problema de trânsito pioraria, já que as pessoas iriam parar nas ruas ou nos estacionamentos?

Itamar Berezin: Concordo que deve ser analisadas região por região e que  a solução ideal seria criar condições de verticalizar a cidade e não horizontalizá-la a fim de evitar a estagnação. Além disso, o ideal é criar situações onde o indivíduo possa morar perto do trabalho e não precisar utilizar o carro como único meio para se locomover. Atrelado a esta ideia, deveríamos ter uma política capaz de abranger investimentos para oferecer transporte público de qualidade.

Obra24Horas: Você acredita, então, que se o transporte público no Brasil fosse melhor, mais gente optaria em deixar o carro na garagem?

Itamar Berezin: Não tenho dúvida! Bons exemplos poderiam ser citados aqui. Para sair do lugar comum que toma como referências grandes metrópoles como Paris, Londres ou Nova York, que são países desenvolvidos, podemos citar a Cidade do México. A capital possui um sistema de metrô com mais de 200 km de trilhos, que atende a cinco milhões de pessoas diariamente e custa menos que 40 centavos de Real. Já a malha do metrô paulistano tem modestos 70,5 km de extensão. Com um transporte público bem-estruturado e que incentiva o uso regular de bicicletas por meio de ciclovias, a Cidade do México conseguiu tirar milhares de carros das ruas e, assim, sair da lista das dez cidades mais poluídas do mundo.

Obra24Horas: Após décadas de um crescimento desordenado e falta de planejamento, como reverter esse quadro?

Itamar Berezin: Elaborando um plano diretor mais profundo. Temos uma cidade que, na verdade, está verticalizada em torno de 20%. A atual legislação está criando situação de encarecimento dos terrenos e empurrando as pessoas para áreas cada vez mais periféricas, criando assim maiores deslocamentos em transporte, seja individual ou coletivo. Um exemplo é o  Bom Retiro, um bairro onde já temos o metrô ao lado, mas com baixo índice de construção e com a outorga onerosa (em algumas regiões da cidade pode se comprar potencial construtivo mediante a pagamento de contrapartida chamada outorga onerosa) com volume muito baixo, uma  região que poderia estar sendo extremamente desenvolvida, desta forma,  temos pessoas indo morar muito mais para frente, passando a zona norte, o que gera inevitavelmente o  deslocamento e aumenta o problema do trânsito.

Obra24Horas: Há o que fazer, em médio prazo, já que para resolver o problema todo, seria necessário muito tempo e uma mudança em diversas partes das cidades, como melhoria de transporte público, diminuição dos altos preços de imóveis nas regiões centrais, etc?
Itamar Berezin: Temos um plano diretor que tem de ser aprovado em curto prazo, que deveria contemplar estas questões com relação ao número de vagas para automóveis em cada região ou ter um maior estímulo com outorgas onerosas e ampliação de índices de construção em áreas com grande potencial como Vila Guilherme, Bom Retiro, Vila Hamburguesa, que são áreas bem servidas de linha de metrô.

Obra24Horas: Você acredita que a extensão da malha ferroviária em cidades como São Paulo já ajudaria a resolver o problema?

Itamar Berezin: Esta seria uma excelente solução, pois temos regiões que poderiam ter linhas de superfície mais baratas que o metrô e que poderiam se incorporar, cada vez mais, na malha de transporte urbano  da cidade. Um exemplo bem sucedido é a linha na Marginal de Pinheiros.

Obra24Horas: As construtoras poderiam fazer algo para tentar amenizar o problema do trânsito nas grandes metrópoles?

Itamar Berezin: As empresas que muitas vezes são culpadas pela maioria da população por cometer tais danos, na verdade, estão sendo obrigadas a ampliar o número de vagas nos casos de edifícios residenciais, por exigência da própria Prefeitura. Com certeza, elas se adaptariam às novas regras, caso as exigências fossem opostas às praticadas hoje em dia. Desta forma, teríamos imóveis até mais baratos.

Obra24Horas: Alguma outra consideração que ache importante.

Itamar Berezin: Muito importante para uma cidade, a exemplo que já acontece em outros países, é que as discussões de política urbanística, fossem cada vez mais independentes da sucessão governamental. Deveríamos ter um conselho permanente de estudos que definisse uma política urbana com poder de tomar decisões sobre projetos públicos de melhoria e transporte urbano.

 

Entrevista para a jornalista Érica Nacarato, redatora do Portal Obra24horas.

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