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“Nosso maior problema é a falta de memória!”

 

Antonio Carlos Zuffo
Ano após ano, tragédias decorrentes das chuvas, em várias cidades do Brasil, revelam a vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, a imprudência humana diante da natureza. Desmatamento, adensamento populacional e falta de planejamento urbano e de consciência política criam um quadro cada vez mais dramático. São cidadãos, poder público e a natureza em completa desarmonia. Mas o alvo das críticas nas manchetes de jornais são geralmente ‘as chuvas’, cada vez mais intensas, como se não houvesse um contexto complexo envolvendo as catástrofes climáticas. Eleger um culpado é inútil, visto que há muitos personagens envolvidos.
 
Segundo dados da ONU, a tragédia no Rio – que ultimamente tem ocupado as primeiras páginas dos noticiários -, figura entre os dez piores deslizamentos do mundo nos últimos 100 anos, mas estados como São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina também enfrentam os transtornos causados pelas enchentes e alagamentos.
 
O Portal Obra24horas conversou com o engenheiro civil, professor da Faculdade de Engenharia, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp e especialista em recursos hídricos, energéticos e ambientais, Antonio Carlos Zuffo, que falou sobre as causas e soluções para estes problemas. 
 
Portal Obra24horas: A ocupação desordenada do território e as fortes chuvas que caem na região sudeste do país seguem criando um cenário que se repete a cada início de ano. É possível mudarmos essa situação?
Antonio Carlos Zuffo: Desde os anos 50, a formação das cidades brasileiras vem construindo um cenário de contrastes, típico de metrópoles. A maneira como se deu a criação da maioria delas acabou atropelando os modelos de organização do território e gestão urbana tradicionalmente utilizados. O resultado tem sido o surgimento de bairros sem infraestrutura e incapazes de comportar o crescimento provocado pelo contingente populacional que migrou do campo para as capitais. Com isso gerou-se o problema das enchentes e inundações.
 
Portal Obra24horas:São Paulo implementou a maior parte de seu sistema viário as margens ou sobre rios e córregos. Até que ponto essas obras podem ser responsabilizadas?
Antonio Carlos Zuffo: Intervir sobre a várzea dos rios pode ocasionar uma série de problemas, mas esse não é o único fator responsável. As pessoas pensam que o problema é sempre onde está enchendo, mas não é. Se um córrego na periferia, por exemplo, foi retificado e canalizado, isso pode provocar uma enchente lá no centro, pois tudo acaba fazendo parte da mesma bacia. É reflexo de uma ação não planejada.
 
Portal Obra24horas: Os piscinões foram adotados pela prefeitura de São Paulo como forma de evitar o transbordamento. É uma medida eficaz? Há outras alternativas para esse caso?
Antonio Carlos Zuffo: Os piscinões têm sido adotados para conter a água da chuva quando ela vem em volume grande e depois solta-la aos poucos, o que dificulta o processo de transbordamento em algumas regiões. Mas a construção de “piscininhas” - pequenos reservatórios de água - construídos em empreendimentos com áreas de impermeabilização superiores a 500 metros quadrados, também ajuda.
Além disso, e acho que talvez esse seja o maior desafio da cidade de São Paulo,é preciso  aumentar a área permeável da cidade, aumentar os espaços públicos - como praças e parques, a fim de aumentar estas áreas.
 
Portal Obra24horas: Com relação aos desmoronamentos no Rio, fala-se muito da falta de controle de construções em áreas de risco por parte do poder público. Há um reducionismo nessa afirmação?
Antonio Carlos Zuffo: As encostas daquela região são bastantes inclinadas devido a presença de argila na composição do solo, esta argila mantêm o solo coeso e estável. As chuvas que caíram já eram esperadas, é característico da estação. Mas é claro que isso pode ter um impacto muito maior nas serras. O solo, ao receber chuva por vários dias, fica encharcado, a água tem a propriedade de diminuir as forças de coesão da argila e aí a estrutura do solo não agüenta o próprio peso e acontece o deslizamento. Essa massa de lama, quando em movimento, tem sua viscosidade diminuída e assim adquire maior velocidade e aumenta seu potencial de destruição, e foi o que ocorreu na região serrana do Rio de Janeiro.
 
Portal Obra24horas: Vendo a devastação da região serrana fluminense, fica difícil imaginar que algo possa ser reconstruído nas áreas que foram soterradas pelos deslizamentos. O que é possível fazer neste momento?
Antonio Carlos Zuffo: Nessa hora, os esquemas emergenciais são prioritários, mas deixam de lado o planejamento em longo prazo, que se relaciona à prevenção. O maior problema é a falta de memória. Logo pára de chover e a tragédia cai no esquecimento. Blumenau, no verão de 1982/83 foi um exemplo. Uma tragédia de grandes proporções, causado por grandes inundações. Há dois anos tudo se repetiu. As pessoas sabem que aquela área é de risco e mesmo assim constrói ali, esquecem que a área já foi palco de muito sofrimento e dor. Logo cai uma chuva mais forte e tudo será desmoronado novamente.
 
Portal Obra24horas: O governo do Rio desapropriou uma fazenda na região atingida para dar início a construção de casas populares. Mas o local, segundo consta, também foi atingido. É possível haver novos deslizamentos de terra em locais que já foram devastados?
Antonio Carlos Zuffo: Sim. Tudo esse cenário de destruição pode voltar a acontecer se nenhuma política de prevenção for concretizada até lá. Enchentes e desmoronamentos sempre ocorrerão. A questão é como nós iremos enfrentá-los daqui pra frente sem que haja tantas vítimas. Não se pode aceitar, de maneira alguma, a ocupação de áreas de risco.

 

Entrevista para a jornalista Mércia Ribeiro, redatora do Portal Obra24horas

 

 

 

 

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