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A ansiedade que aos poucos nos tomava, meninos adolescentes na década de 1970, à medida que chegava a hora de início do desenho do Speed Racer na TV, era tanta que “ai” de quem passasse em nossa frente quando tocava a campainha da escola e disparávamos pra casa… Seria, literalmente, atropelado, sem chance alguma de interrupção da carreira para verificação de eventual dano provocado.

Pelos depoimentos que ouvi na TV, ao menos cinco carros que passavam pelo viaduto da Marginal Pinheiros, que na madrugada do Dia da República colapsou, voaram como voava o Match 05 do Speed Racer para vencer o degrau de um metro de altura, que se formou numa das juntas de dilatação. Melhor ainda, pousaram como pousava o Match 05, um pouco mais avariados, a bem da verdade, mas com os heróis incidentais que os pilotavam salvos para novas aventuras.

Aventuras que, de certo, não terão fim tão breve, afinal, segundo o prefeito da cidade de São Paulo, o viaduto que ruiu não fazia parte da lista dos 33 mapeados como alvo prioritário de reparos.

Horas depois e o roteiro se repete. De um lado, pululam relatórios técnicos, apresentando a razão do acidente; de outro, as indagações claras, cristalinas, de qualquer leigo acerca do porquê de não haver prevenção e a respeito das dúvidas quanto ao prazo de conserto. Afinal, a cidade que nunca para, agora, terá de dar pulos, pois está manca de uma perna.

Em fevereiro deste ano, passou o mesmo filme em Brasília, filme não, desenho, porque, por mais grave o acidente, ninguém morre. O viaduto da via expressa mais importante da cidade, o Eixo Rodoviário, ruiu e só agora, mais de 8 meses depois, é que se deu início a reconstrução. Até que tudo esteja pronto, utilizamos dois S insinuantes, construídos provisoriamente nas laterais da via.

Nas noites de terça, quando volto da reunião na Comunidade Grega, se dou sorte de nenhum carro passar ao meu lado, acelero um pouco mais, quando saio do mergulho no túnel conhecido como “Buraco do Tatu”, divisor das Asas Norte e Sul, e, impossibilitado de seguir reto por causa do bloqueio na pista, viro ligeiro pra direita, tomo a primeira perna do S, tombo prontamente para a esquerda, pego uma curta reta e… finalmente, saio pela segunda perna do S, embicando no sentido de casa. Emoção pura, como nos desenhos do Speed Racer.


 

Artigo escrito por Dionyzio Klavdianos - 1º Vice-presidente do Sinduscon-DF

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