v Obra24horas | Artigos Técnicos > Lições de uma tragédia
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Em maio, a notícia da explosão ocorrida em um apartamento em São Conrado, bairro da cidade do Rio de Janeiro, ganhou destaque no noticiário nacional.
O evento, de grandes proporções, causou destruição em vários apartamentos do mesmo edifício e o proprietário da unidade onde ocorreu a explosão ficou gravemente ferido e veio a falecer dias depois.

Conforme noticiado, os peritos do ICCE – Instituto de Criminalística Carlos Eboli – concluíram que a explosão teve origem por conta do gás que vazou para o interior do apartamento em razão de deficiência na instalação de “rabicho” que conectava fogão ou aquecedor à tubulação de gás e que teria sido substituído pelo próprio dono da unidade, pouco antes da ocorrência.

Embora muitas vezes não venham para as manchetes dos sites, dos jornais ou das televisões, acidentes domésticos dessa natureza são muito mais frequentes do que se imagina.

Existem “automedicações nos edifícios” em todos os tamanhos, tipos e padrões de imóveis. Do mais simples barraco ao escritório em edifício de alto padrão, nenhuma construção está imune a essa terrível prática. Os acidentes, em sua maioria, não são imediatos, não ocorrem no momento em que são realizadas as intervenções. Eles podem acontecer devido à deterioração precoce na edificação ou em seus sistemas. Casos comuns são os danos às instalações elétricas, que podem causar curtos-circuitos, queima de equipamentos eletrônicos e, até mesmo, incêndios em móveis, cortinas e cômodos inteiros. Também são comuns as intervenções indevidas no sistema hidráulico. São exemplos de automedicação encontrados com muita frequência:

- Trocar disjuntores por outros com maior amperagem, quando os originais desarmam com frequência em razão de excesso de carga;

- Esconder trinca ou bolor com papel de parede;

- Aplicar argamassa em peças de concreto armado, sem critério técnico definido, para encobrir armaduras oxidadas;

- Ocultar marquises ou outras estruturas em concreto armado deteriorado atrás de belas fachadas decorativas, em vidro ou alumínio, por exemplo;

- Emendar tubulações com fitas adesivas ou massas plásticas;

Essas providências podem até afastar dos olhos as manifestações de problemas não agradáveis, mas não eliminam suas origens, podendo se agravar com o tempo. Muitas vezes as patologias são até agravadas ou continuam a se desenvolver de forma oculta e, de um momento para o outro, se manifestam com intensidades tão relevantes a ponto de levar a construção à ruína.

Usando a analogia da medicina, edificações também são vítimas do uso de vitaminas e anabolizantes não prescritos, que, varia de um simples benjamim, para ampliar a quantidade de tomadas em um ambiente, à colocação de caixas d’água adicionais, ou até a construção de pavimentos extras sem quaisquer projetos e análises.

Neste cenário, deve se estar sempre muito atento com as intervenções feitas nas edificações, pois a falta de corretas prescrições, ou a realização de intervenções sem respeitar a boa técnica, pode ter consequências graves, tanto para os edifícios, como para seus usuários. Como estamos falando de pequenas intervenções, é raríssimo que ocorra fiscalização, como acontece em grandes obras, pelo poder público.

* Flávio Figueiredo é engenheiro e conselheiro do IBAPE/SP – Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia de São Paulo.

Artigo escrito por Flávio Figueiredo

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