v Obra24horas | Artigos Técnicos > Com quantos shopping centers se faz uma cidade?
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O modelo tradicional dos Shoppings Centers está exaurido. Ainda bem!

Cada vez mais tenho visto artigos – normalmente em sites ou blogs de economia – que discutem a falência do modelo tradicional de shopping centers nos EUA*. Frequentemente instalados fora das cidades, acessíveis somente por carros, esses grandes edifícios são em geral traduzidos em grandes caixas fechadas, recheadas de lojas e atrações de lazer.

Em alguns lugares, o frio intenso até justifica o modelo hermético do edifício, reforçado pelo fato de estar isolado de qualquer outro edifício ou equipamento urbano e rodeado por infinitas vagas de estacionamento.

No Brasil, a febre dos shopping centers herdou muito do modelo norteamericano. Mas uma vantagem assegura à versão tupiniquim uma sobrevida possivelmente maior: por aqui, os shoppings estão geralmente dentro das cidades, ‘integrados’ ao cotidiano das pessoas.

Não que isso seja uma enorme vantagem para a cidade. O comércio tradicional de rua perdeu o público de renda média e alta para o conforto do ar condicionado, ilusão de segurança e desconexão absoluta com a realidade. Chuva, calor e noite são informações que os shoppings se orgulham de nos ocultar: afinal, quanto mais nos concentrarmos só em consumir, melhor...

O modelo de ‘caixa forte’ que os shoppings adotam é muito esquisito. Sua escala monumental geralmente afronta o entorno e provoca desequilíbrio na infraestrutura de transportes, água e energia. Seu espaço inequivocamente privado refuta relação com a rua, chegando ao extremo de, em alguns casos, simplesmente ignorar o consumidor que chegue a pé.

Espaços verdes, permeáveis ou públicos são impensáveis – se houver espaço livre, será para estacionamento! Será que os empreendedores não enxergam que isso é ruim para todos, inclusive para eles mesmos?

Orgulho-me de nunca ter posto os pés no Shopping Cidade Jardim, que é a última palavra em exclusão social. Perdido no meio da agressiva Marginal do Pinheiros, o shopping não acolhe qualquer tipo de pedestre – nem os ricos do bairro conseguem entrar a pé.

À guisa de fortificação medieval, sobre o monumental trambolho brotam edifícios neo-bobos que os novosricos ocupam com empáfia. Sorte nossa, eles não precisam nem sair de casa para ir às compras! O Cidade Jardim é a última palavra em condomínio-clube, esse câncer que se alastra pela cidade.

Ouvi dizer que vão até inaugurar cemitérios nesse tipo de condomínio, ao lado da ‘pérgula da babá’ e da ‘piscina do idoso’, para que as pessoas não saiam de casa para morrer.

Há também shoppings para outras classes sociais. Aliás, há vários: só na cidade de São Paulo, já são cerca de 50 grandes shoppings, e a lista continua a crescer. Mas de alguns anos para cá, novidades têm diversificado o mercado, como pequenos edifícios comerciais de bairro.

Esses pequenos shoppings nasceram da percepção de alguns empreendedores de que há espaço para pulverização do comércio de conveniência. Mais perto das casas, diluem o tráfego e não sobrecarregam as demais redes. Muitas vezes abertos para a rua, são convidativos também para pedestres.

Sua escala menor dificilmente causa grande contraste com o entorno. E, versáteis, são viáveis tanto em bairros ricos quanto em áreas menos abastadas, levando emprego, comércio e serviço para locais antes desatendidos.

Em alguns casos, funciona praticamente como comércio de rua tradicional, em outros, como uma mini caixa forte. Será que estamos voltando ao modelo de ‘galerias’, que foram tão populares nos centros de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo?

O interessante das galerias é que elas são, potencialmente, parte do tecido urbano. Muitas vezes, interligam ruas diferentes e transformam o espaço privado em extensão do público e não brigam com o comércio tradicional de rua – pelo contrário, complementam-no.

Em São Paulo, as galerias do Centro podem ter perdido o ‘glamour’, mas continuam pulsantes e adaptadas ao padrão dos frequentadores atuais da região.

No Rio, é possível encontrar galerias chiques em meio a ruas de comércio vívido como a Visconde de Pirajá, que oferece na porta ao lado um sapateiro, um boteco ou uma farmácia.

Felizmente, lá o comércio de rua sobrevive à febre dos shoppings. Talvez porque a cidade não comporte, pela sua limitação física, novos e grandes edifícios – à exceção da Barra da Tijuca, é claro, mas a Barra está longe de ser o Rio.

Seja lá como for, equipamentos comerciais demandam uma sustentabilidade que transcende a eficiência energética do edifício. Seus materiais e dispositivos de conforto higrotérmico parecem menos relevantes do que a eficiência da própria cidade que o acolhe.

Não podemos pensar só em praças e jardins quando discutimos os espaços públicos de uma cidade, há de se considerar que eles são determinados também por outros usos, como o comercial.

Ignorar o problema é abrir mão de projetar uma cidade mais equânime, democrática, generosa e eficiente quando trabalhamos com um programa aparentemente tão ‘privado’.

E o mais engraçado de tudo: uma ampla revisão da cartilha dos shoppings poderia até aumentar sua eficiência comercial!

*Artigo publicado em especial, indico o artigo Birth, Death and Shopping, publicado na The Economist de 19/12/2007 e o site
www.deadmalls.com

** Lourenço Urbano Gimenes é arquiteto e urbanista formado pela FAUUSP, com mestrado em Estruturas Ambientais Urbanas pela mesma instituição. Sócio do escritório de arquitetura Forte, Gimenes & Marcondes Ferraz

Artigo escrito por Lourenço Urbano Gimenes

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