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ARTIGOS
Introdução

No Brasil, o crescimento no ritmo das construções tem causado uma elevação na quantidade de acidentes. Segundo dados da Previdência Social1, em 2009 foram aproximadamente 19 mil acidentes no item Construção de Edifício da Classificação Nacional de Atividade Econômica, um número 40% maior que o registrado em 2007.

Essas estatísticas levaram o setor a ocupar a quinta colocação no ranking de setores com maior número de registro de acidentes do trabalho. Mesmo com o advento da norma regulamentadora NR18- Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construção2 em 1992, e suas constantes atualizações, os canteiros de obra frequentemente carecem de ações preventivas relacionadas à saúde e segurança do trabalho (SST).

A construção civil nacional possui características singulares que podem dificultar a
aplicabilidade de técnicas de gerenciamento de riscos, pois há uma predominância do uso de concreto armado e alvenaria, com um grau de precisão do trabalho em geral muito menor do que em outras indústrias, o que torna a atividade mais passível de erros e improvisações.

Na medida em que o setor vai se modernizando, com frequência cada vez maior são incorporadas ao cenário brasileiro construções que empregam estruturas metálicas, que possuem vantagens como: menor prazo de execução, alto grau de precisão, vida útil longa, possibilidade de desmontagem e reciclagem ou reaproveitamento, etc. Alia-se a essas vantagens o aumento na oferta de produtos complementares pré-fabricados compatíveis com esse sistema, contribuindo para fortalecer e consolidar a industrialização das construções.

A introdução de novas tecnologias no processo de edificação, apesar de retirar do canteiro uma série de atividades lentas e improvisadas, pode elevar o potencial de riscos de acidentes se medidas adequadas de SST não forem adotadas. Em uma edificação, as fases de instalação da estrutura metálica abrangem atividades específicas, que implicam o surgimento de riscos peculiares, muitas vezes não conhecidos pelos responsáveis pela construção e pelos trabalhadores. Por apresentar riscos peculiares, muitas vezes não é possível a simples adaptação das medidas normalmente adotadas durante a execução de obras estruturadas em concreto armado3.

Ao tratar de edificações em estrutura metálica, a NR18 inclui apenas algumas exigências específicas, sem considerações suficientes para garantir a segurança e a saúde do trabalhador no canteiro de obras. A norma apresenta lacunas, principalmente em relação à necessidade de previsão das medidas de segurança ainda na etapa de projeto, pois o nível de precisão da montagem é milimétrico e o material, por sua própria constituição e dureza, não admite improvisos.

De acordo com a British Constructional Steelwork Association4, os acidentes mais graves que ocorrem durante a montagem de estruturas são geralmente causados por quedas de altura, a partir de posições de trabalho ou durante o acesso a elas. Outros acidentes ocorrem devido à instabilidade estrutural durante o içamento e durante o manuseio e transporte de materiais.
Incorporação de medidas de segurança na fase de projeto

Alguns países já adotam o conceito design for construction safety (DfCS) - projeto para construção segura -, quando se incorpora aspectos de SST na etapa de projeto. A indústria da construção em aço nesses países parece estar entrando em uma nova era em que a SST é adicionada como um dos principais critérios do projeto5.

De uma atenta análise das práticas de SST incorporadas no projeto de estruturas metálicas, a seguir apresentam-se algumas orientações.

Marcação dos pontos de içamento nas peças

Todo içamento deve ser o mais estável possível, evitando-se choques e movimentos bruscos, lateralmente e verticalmente. Por isso, a determinação do ponto de equilíbrio do sólido, o centro de gravidade (CG), é de suma importância para o sucesso do levantamento de cargas8.

O cálculo do CG geralmente não é realizado no canteiro. Por isso recomenda-se a identificação do pesos e ou do CG em peças grandes ou de forma irregular6 e a indicação dos pontos de içamento nas próprias peças7, de acordo com o equipamento e a quantidade de cabos a serem utilizados na operação.

Desenvolvimento do plano de montagem e do plano de rigging

A sequência de montagem deve seguir certas premissas a fim de assegurar a estabilidade da estrutura e evitar seu colapso progressivo e erros de montagem. Outro fator a ser considerado na ordem de ligação das peças é a possível obstrução de acessos para montagens seguintes. Diferentemente do diagrama de montagens, que objetiva mostrar a localização das peças na estrutura, o Plano de Montagem deve conter os seguintes pontos8: núcleo de contraventamento a ser montado primeiro (caso não seja possível, criar estruturas provisórias de contraventamento na primeira parte da estrutura a ser montada); sequência de montagem a partir do núcleo inicial; dimensionamento, posicionamento e tipo das estruturas provisórias de estabilização, se existirem, e plano de rigging.

O Plano de rigging é elaborado na forma de procedimentos e representações gráficas com o intuito de garantir a segurança da operação por meio do detalhamento da movimentação vertical das peças, desde o local da armazenagem até a sua posição final na estrutura.

A NR182 não faz referências ao plano de montagem, nem ao plano de rigging, prevendo somente um documento denominado “plano de cargas para gruas”, que, pela nomenclatura, dá indícios de que é específico para gruas e não há recomendações quanto ao uso de outros equipamentos.

Métodos de acesso seguro às posições de trabalho

A instalação dos sistemas de escada permanente ou temporária, logo que possível, ajuda a eliminar alguns riscos associados ao acesso temporário; entretanto, nem sempre é possível alcançar os pontos necessários por meio de escadas. Para evitar restrições de acesso, sistemas de acessos temporários, como andaimes, podem ser instalados no limite da estrutura do edifício.

O acesso seguro pode ser conseguido a partir de pisos metálicos ou pranchas pré-moldadas instaladas no andar inferior6 ou a partir de plataformas modulares desmontáveis, desde que previstos no projeto os meios para a sua instalação9.

Métodos para instalação de sistema de proteção contra quedas

Um dos riscos mais críticos na construção em estruturas metálicas é o de queda que ocorre durante a realização de trabalho em altura, acima de dois metros do nível inferior2.

Os sistemas de proteção contra quedas podem ser4: a) sistema de prevenção de quedas, que impede o trabalhador de ficar numa posição de onde poderia cair; b) sistema de retenção ou contenção, que restringe a pessoa de atingir os locais onde uma queda possa vir a ocorrer; c) sistema de limitação de queda, que consiste em dispositivos que limitam a extensão da queda, de modo que a pessoa permaneça presa.

São exemplos de sistemas de prevenção de quedas: guarda-corpos; barreiras; sistemas de proteção de periferia, previstos na NR18, geralmente constituídos de guarda-corpo, rodapé e vãos preenchidos com tela2. Devem-se disponibilizar pontos para a fixação desse sistema de prevenção e, sempre que possível, instalar a proteção na estrutura de aço ainda ao nível do solo, reduzindo o risco de trabalhos em altura para a instalação do sistema. Mesmo que a sequência de trabalho limite a instalação completa de tais itens ainda no solo, a disponibilização de pontos de fixação adequados facilita e torna mais ágil a instalação em altura4,6. É importante também o projeto de guarda-corpo de periferia e plataformas de proteção em perfis tubulares de aço, com dimensões ajustáveis, de forma a permitir o reaproveitamento em diversas obras3.

Os sistemas de retenção consistem em pontos de ancoragem ou cabos-guia onde são fixadas as ligações dos cintos de segurança tipo abdominal, utilizado como limitador de movimentação2.
É recomendável a previsão, ainda na fase de projeto, de pontos de ancoragem estratégicos nas lajes inferiores ou superiores, ou em pilares. Cabos de aço passando por orifícios ou ganchos previamente executados nos pilares também podem ser utilizados como cabos-guia para a fixação de cintos de segurança3. A capacidade dos orifícios e ganchos de servirem como dispositivos de fixação do cinto ou de cabos-guia será determinada conforme: seu diâmetro; distância da borda; a adequação às exigências da argola, do cabo-guia ou dos demais conectores.

Os sistemas de limitação de queda consistem em: redes de segurança e cabos-guia ou pontos de ancoragem aos quais se conecte o cinto de segurança tipo paraquedistas. Esse sistema deve ser armado nos casos em que as barreiras fixas e os dispositivos de retenção não puderem ser instalados. Podem-se prever orifícios e pontos de ancoragem, dimensionados para suportar impactos de queda, para a instalação de cabos-guia ou para a fixação direta dos cintos de segurança. Onde possível, o ponto de ancoragem deve ser colocado acima do trabalhador para minimizar a distância de queda. Espaço suficiente abaixo do trabalhador deve ser garantido de forma que a corda que limita o comprimento da queda não seja maior que a distância a qualquer obstáculo4. A NR35 aborda esses dois últimos itens de forma semelhante.

Assim sendo, para a instalação desses sistemas devem-se prever: a) orifícios ou outros elementos estruturais nas colunas; b) placas ou outros acessórios que permitam soldagem ou parafusagem; c) orifícios em vigas; d) pontos de ancoragem nas lajes, pilares e vigas. Esses elementos estruturais também podem ser úteis na fixação de dispositivos de içamento4.

Redução dos trabalhos de união de peças em altura

A montagem prévia de subconjuntos de peças ainda no térreo é, na maioria das vezes, o método mais adequado e seguro de construção6. Os montadores devem reduzir a necessidade de trabalho em altura e montar o máximo de estruturas de aço possível ao nível do solo, ou a partir de lajes de piso construídas7.

Preferência por ligações soldadas de fábrica ou parafusadas em campo

Sempre que possível, deve-se prever soldagem de fábrica e ligações parafusadas em campo para evitar situações perigosas ou incômodas para o trabalhador. As ligações em campo devem ser preferencialmente parafusadas, não só pelas necessidades inerentes à soldagem (disponibilidade de energia elétrica, soldadores qualificados, etc.), como também para se evitar os riscos associados ao processo10.

Detalhamento de peças garantindo acessibilidade e menores riscos

Sempre que possível, devem-se evitar superfícies ásperas, cantos vivos, quinas em ângulos agudos, rebarbas ou outras saliências em peças, para não causar acidentes quando em contato com os trabalhadores.

O detalhamento deve considerar a facilidade de execução das ligações7. Ter familiaridade com as dimensões das ferramentas necessárias para realizar ligações em campo pode ajudar os projetistas a especificar conexões mais acessíveis e práticas, e evitar riscos ergonômicos e de acidentes na montagem. São exemplos de aspectos de projeto que podem influenciar e reduzir os riscos5: disponibilizar espaço suficiente para acesso das mãos e ferramentas nos locais de ligação; evitar ou esconder cantos vivos próximos ao local das ligações; evitar conexões ou outros obstáculos em cima de vigas.

Considerações Finais

A etapa de projeto é o momento oportuno e importante para influenciar a segurança e prevenir os riscos inerentes às atividades de montagem de estruturas metálicas.

O projeto DfCS, além de auxiliar na facilidade de construção, pode aumentar a produtividade e resultar em economia, pois os empreendimentos muitas vezes são concluídos mais rapidamente por redução ou eliminação de atrasos relacionados à segurança.

Não se pretende sugerir que os projetistas sejam parcialmente responsáveis pelas medidas de SST em canteiros de obras, mas incentivá-los a incorporarem aspectos de SST na concepção das construções, utilizando a compreensão dos princípios estruturais de engenharia para tornar mais práticas e eficientes a instalação dos sistemas de proteção e a adoção das medidas de segurança.

Referências

(1) BRASIL. Ministério da Previdência Social. Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho 2009. Quantidade de acidentes de trabalho, por situação do registro e motivo, segundo a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), no Brasil – 2007/2009. Brasília, DF, 2010.

(2) BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Normas Regulamentadoras de Segurança e Medicina do Trabalho. NR18 - Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construção. 2011.

(3) MÉLO FILHO, E.C.; RABBANI, E.R.K.; BARKOKÉBAS JUNIOR, B. Proposta de medidas de proteção coletiva para construção de edificações em estruturas metálicas. In: XII Encontro Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído, 2008, Fortaleza. Anais... Fortaleza: ENTAC, 2008.

(4) BRITISH CONSTRUCTIONAL STEELWORK ASSOCIATION- BCSA. BCSA Code of practice for erection of multi-storey buildings. No 42/06. Londres: BCSA Publication, 2006.

(5) TOOLE, M.; HERVOL, N.; HALLOWELL, M. Designing Steel for Construction Safety. North American Steel Construction conference, San Antonio, TX, February, 2006.

(6) CORUS. Steel the safe solution. Tata Steel Group, 2004. Disponível em: <
http://www.tatasteelconstruction.com/en/reference/publications/health_and_safety/>. Acesso em: 15 fev. 2011.

(7) WORKSAFE VICTORIA. Industry Standard, Safe erection of structural steel for buildings. Edition No. 1. May 2009. Disponível em: <
http://www.worksafe.vic.gov.au>. Acesso em: 15 fev. 2011.

(8) PINHO, M.O. Transporte e montagem. Rio de Janeiro: IBS/CBCA, 2005.

(9) TOOLE, M. Safety by design. Apresentação powerpoint. Disponível em: <
www.designforconstructionsafety.org>. Acesso em: setembro, 2011.

(10) INSTITUTO BRASILEIRO DE SIDERURGIA - IBS. Ligações em estruturas metálicas. Rio de Janeiro: IBS/CBCA, 2004.

* Roberta Carvalho Machado é aluna do.Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil – Construção Metálica, Escola de Minas -UFOP, Brasil.
Colaboradores:
Antônio Cleber Gonçalves Tibiriçá 2. Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo – Universidade Federal de Viçosa - UFV, Brasil.
Guilherme Sensato 3. PETROBRAS, Brasil.

Fonte: Portal
Met@alica.

Artigo escrito por Roberta Carvalho Machado

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