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De olho no enorme potencial de mercado que o novo programa habitacional "Minha Casa, Minha Vida" deve gerar, a indústria siderúrgica aposta todas as suas fichas no uso em escala do aço como solução estrutural capaz de viabilizar a construção de habitações populares.

Para entrar nesse mercado, no entanto, o aço terá de vencer a resistência do setor de construção. Ainda associado às edificações comerciais, cujo uso é viabilizado, sobretudo pelo rápido retorno do capital investido, o aço ainda enfrenta barreiras no segmento habitacional. Para se ter uma idéia do que representa o produto no nicho residencial, apenas nos últimos anos foram construídas três mil casas e 500 prédios com estrutura de aço.

Concentradas na região Sudeste, parte dessas unidades foi financiada pela Caixa Econômica Federal, e outra, realizada com recursos das Cohabs (Companhia Metropolitana de Habitação), CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) e prefeituras municipais.
Para ampliar a participação das estruturas metálicas no segmento habitacional, o setor aposta na repetitibilidade e na grande escala de construção. "Nesse segmento, o que importa não é mais se a estrutura é modulada e sim o grau de repetição da edificação", observa o engenheiro civil Fernando Pinho Ottoboni, consultor de estruturas metálicas.

O CBCA (Centro Brasileiro da Construção em Aço) acredita que o setor siderúrgico está hoje completamente maduro e oferece várias opções de sistemas construtivos, que podem estruturar desde casas baixas unifamiliares até edifícios de múltiplos andares multifamiliares.

Uma das características dos sistemas construtivos em aço é a praticidade na fabricação dos kits metálicos, desde que sejam padronizados para produção em larga escala. "Dessa forma, é possível instalar fábricas dessas estruturas em locais cuja logística permite um atendimento centralizado a vários canteiros simultaneamente, observa o arquiteto Paulo César Arcoverde Lellis.

No entanto, é consenso que, para obter os resultados esperados, as soluções em aço para a baixa renda devem ser concebidas em conjunto com todos os outros sistemas construtivos e subsistemas da edificação. A boa notícia é que outros componentes da solução estrutural, como placas de gesso acartonado, de OSB (oriented strand board) ou cimentícias já são amplamente difundidos no mercado, bem como os isolantes térmicos e acústicos como lã de vidro ou lã de rocha e as membranas hidrófugas (que inibem a entrada de água e ar vindos do exterior), também comercializados em todo o território nacional.

Gargalos

Apesar das excelentes condições de mercado e do preparo das siderúrgicas, um dos maiores gargalos para o uso dos perfis estruturais de aço é a escassez de projetistas e construtores especializados nesse tipo de obra no mercado de construção civil brasileira.

Essa situação, no entanto, pode ser entendida como um reflexo da falta de cultura de uso do sistema. Enquanto nos EUA cerca de 50% das construções são executadas com aço, no Brasil o índice é de 3%. "Sem uso, não há desenvolvimento. Temos de quebrar esse ciclo, acredita Pinho.

Nesse sentido, vislumbra o consultor, o novo programa habitacional do governo poderia ser um grande propulsor do uso do insumo no segmento de baixa renda.

Mas, para que o sistema em aço se confirme como uma opção industrializada viável, os agentes que quiserem atuar nesse segmento deverão ter em mente que a solução pressupõe projetos bem detalhados e execução competente. "O que nem sempre acontece, pois o Estado não tem interesse em contratar o responsável pelo projeto para acompanhar a obra, alerta o arquiteto Siegbert Zanettini.

Complexo Pavão

As péssimas condições para a implantação dos quatros blocos dos conjuntos habitacionais dos complexos Pavão - Pavãozinho (Copacabana) e Cantagalo (Ipanema) impuseram um grande desafio à Construtora OAS, responsável pelas obras. Parte de um conjunto de quatro grandes empreendimentos a serem executados pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) nas favelas cariocas, só pode ser viabilizado com o uso do aço como solução estrutural. De acordo com Rodrigo Ventura, gerente de contratos da construtora, a altíssima declividade de até 58 m em alguns trechos do terreno praticamente tornou proibitivo o uso de qualquer sistema convencional.

A utilização de fôrmas seria inviável, em virtude da impossibilidade de executarmos escoramentos, explica. Não bastasse isso, as ruas estreitas e sinuosas que davam acesso ao canteiro também limitavam o uso de outras soluções, como os préfabricados de
concreto, por exemplo. Para estruturar as edificações a alternativa foi a utilização dos perfis estruturais laminados. Uma das maiores vantagens da solução foi a eliminação de soldas em campo. As ligações são 100% parafusadas, o que implica um trabalho maior e mais lento na fábrica, mas na redução pela metade do tempo de montagem na obra, diz Ventura.

Outro benefício do produto é o fato de os perfis já virem jateados e pintados da fábrica, eliminando acabamento posterior. Apesar de ser a única alternativa viável para a execução dessa obra, Ventura afirma que é completamente possível replicar o uso do aço em outras obras destinadas ao segmento de baixa renda, mesmo que em condições mais favoráveis. Nessa obra, a execução das estruturas foi finalizada em apenas quatros meses.

Fator custo

Uma das polêmicas envolvendo a construção em aço diz respeito ao preço desse insumo. Quando instigada a falar sobre o assunto, a indústria siderúrgica logo ressalta as inúmeras vantagens do sistema frente às demais soluções, o que barateariam seu valor. E aposta na utilização em escala, como seria o caso no programa "Minha Casa, Minha Vida", para ampliar ainda mais esses benefícios e reduzir drasticamente o seu custo.

De acordo com Catia Mac Cord, gerente executiva do CBCA, no mercado de residências na faixa entre R$ 60 mil e R$ 100 mil, os sistemas construtivos já desenvolvidos pelo mercado são bastante competitivos, quando comparados aos sistemas convencionais. "A afirmação de que são mais caros leva em conta apenas o custo comparativo das estruturas, não considerando o custo da obra como um todo, a produtividade da mão de obra e o ganho de tempo propiciado pela velocidade das construções industrializadas, ressalta. Embora um sistema possa empregar mais aço, isso não significa que será mais caro, alegam os defensores do sistema.

A quantidade desse insumo, no entanto, variará de acordo com a resistência exigida pelo projeto. Uma alternativa, segundo o engenheiro civil Fernando Ottoboni Pinho, é investir em aços de alta resistência, como o A572 G50. Ele é mais caro, mas proporciona redução na quantidade de aço, compensando a sua especificação, explica.

A exigência de especificação de mantas térmicas (lãs de rocha ou de vidro) como componente do sanduíche de fechamentos (gesso acartonado ou OSB), por exemplo, também pode encarecer a execução desse tipo de residência nas regiões mais frias do País. Mas, segundo o engenheiro, outros fatores, como o considerável alívio no peso das fundações, para citar um deles, compensariam esse investimento.

"Numa residência unifamiliar, o peso de uma estrutura metálica em steel framing representa 10% de seu equivalente em concreto armado. Já em prédios multiandares, o peso da estrutura metálica com laje mista representa 50% do peso de uma estrutura em concreto armado", diz a
arquiteta Silva Scalzo.

Artigo escrito por Portal Metalica

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