Crise no setor de construção ameaça a economia global
A desaceleração da atividade imobiliária na China tem impacto que transcende as fronteiras locais e pode afetar a atividade econômica global. O setor de construção responde por 25% dos investimentos e cerca de 20% da demanda de aço do País, produto do qual o minério de ferro exportado pelo Brasil é a principal matéria-prima.
"Fornecedores internacionais que estão alimentando o boom de construção da China - mineradoras na Austrália e no Brasil, produtores de cobre no Chile, madeireiras no Canadá e na Rússia e fabricantes multinacionais de equipamentos como Caterpillar e Komatsu - poderiam ser duramente atingidos", escreveu o professor da Universidade Tsinghua Patrick Chovanec em artigo sobre a bolha imobiliária chinesa publicado na última edição da revista Foreign Affairs.
Em sua avaliação, eventuais perdas no setor imobiliário e nos empréstimos que deram fôlego aos construtores podem afetar a confiança do consumidor, minando a emergência da demanda chinesa como novo motor de crescimento da segunda maior economia do mundo.
O boom de investimentos dos últimos anos e a especulação levaram à rápida valorização das propriedades, que em algumas regiões dobraram de preço em dois anos. No primeiro semestre de 2011, um morador com a renda média em Pequim teria que trabalhar 36 anos para comprar uma residência, ressalta Chovanec. O período é o dobro dos 18 meses registrados em Cingapura e o triplo dos 12 meses de Nova York.
No fim do ano passado, a Academia Chinesa de Ciências Sociais, ligada ao governo, divulgou estudo no qual avaliou que os preços dos imóveis haviam se tornado inacessíveis para 85% dos moradores das cidades. Chen Sheng, vice-diretor do Instituto China Index Academy, afirma que as vendas caíram em média 30% no mês de novembro em todo o país. Em Xangai, maior e mais rica cidade chinesa, a retração foi de 58% na comparação com igual período de 2010. Na capital, Pequim, a queda foi de 39%.
Como os empreendedores continuaram a construir, apesar das medidas de contenção adotadas pelo governo, os estoques estão no mais alto patamar da história, segundo Chen. O volume atual é suficiente para 14 meses de vendas. No período de pico do mercado, a oferta era suficiente para atender a demanda de dois meses. "O que é preocupante é que há mais propriedades em construção, o que significa que haverá mais estoques no futuro", observou Chen.
Da Redação, original O Estado de S. Paulo.