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Com demanda interna menor que o esperado e incertezas sobre a adoção de cotas pelo governo dos EUA, siderúrgicas brasileiras abandonam otimismo do início do ano

Apesar do setor siderúrgico brasileiro ter começado o ano otimista, as consequências da guerra comercial entre Estados Unidos e China e a fraqueza da construção civil no País são ameaças à sobrevivência das empresas.

Segundo o presidente executivo do Instituto Aço Brasil (IABr), Marco Polo de Mello Lopes, além do mercado interno fraco, a principal preocupação das siderúrgicas atualmente é o desfecho das negociações entre Brasil e EUA, uma vez que grande parte da produção brasileira será destinada às exportações. “O mercado interno não está respondendo da maneira como esperávamos. O setor automotivo está melhorando desde o ano passado, mas o que gera mais emprego e tem a nossa maior parcela de consumo é a construção civil, que ainda está com um desempenho bastante fraco”, esclarece.

Enquanto a produção da indústria automobilística teve um aumento de 17,2% em 2017, a construção civil recuou 3,3% no mesmo período. Entre janeiro e fevereiro de 2018, por sua vez, o setor automotivo avançou 21,7% na comparação com o mesmo período no ano anterior, ao passo que a construção subiu apenas 3,3%.

O presidente executivo do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda), Carlos Jorge Loureiro, destaca que as projeções iniciais de crescimento de 10% nas vendas de aços planos para 2018 devem ser revisadas diante da decepção com o resultado de março, quando foi registrada uma alta de apenas 1,2% ante fevereiro, para 262,9 mil toneladas. “Vamos esperar passar abril e maio, mas o entusiasmo dos últimos meses arrefeceu com o que vimos em março. Com certeza teremos uma queda de expectativa”, pondera o dirigente.

A ideia, de acordo com Loureiro, é revisar os números esperados para o fechamento do ano conforme saírem os resultados dos próximos dois meses para que se tenha uma visão mais clara a respeito do desempenho do setor siderúrgico.

Internacionalmente, a situação também se mostra difícil para as siderúrgicas. No dia 1º de maio, o presidente norte-americano Donald Trump irá decidir a nova forma de lidar com o aço que vem do Brasil. No início de março, os EUA anunciaram a imposição de uma tarifa de 25% sobre o aço e de 10% sobre o alumínio importados. Após negociações com o governo e entidades brasileiras, Trump voltou atrás, suspendendo a barreira comercial para o nosso País, junto com Argentina, Austrália, Canadá, Coreia do Sul, México e União Europeia.

No entanto, as apostas hoje são de que os EUA deverão impor cotas para a entrada do produto brasileiro, o que prejudicaria o setor, visto que o Brasil é o segundo maior exportador de aço para o país e as vendas para os norte-americanos representam um terço dos embarques brasileiros desse tipo de mercadoria.

Mello Lopes reforça que a indústria brasileira segue negociando com os órgãos competentes norte-americanos para que não haja imposição de cotas aos produtos semiacabados. “Nós mostramos aos americanos que o Brasil não é uma ameaça a eles. Nós exportamos semiacabados para vender para a indústria norte-americana, que não possui autossuficiência nisso.”

Diretamente afetados pelo desempenho das siderúrgicas, os beneficiadores e vendedores de sucata brasileiros também estão preocupados com o futuro. O presidente do Instituto Nacional das Empresas de Sucata de Ferro e Aço (Inesfa), Clineu Nunes Alvarenga, entende que apesar dos preços terem aumentado no fim do ano passado, o setor sofre muito com a concentração atualmente. “A compra da divisão de aços longos da Votorantim Siderurgia pela ArcelorMittal diminuiu de três para dois o número de grandes consumidores do nosso produto”, conta.

A Arcelor afirmou nesta quinta-feira (26) ter concluído a venda de ativos para incorporar a divisão da Votorantim. Na opinião de Alvarenga, a retração da demanda, junto com o maior poder de mercado dos clientes, fez com que os beneficiadores de sucata fossem obrigados a buscar o mercado externo, que é mais caro por questões de logística.

De 2014 a 2016, o consumo de sucata de ferro e aço caiu 12,8%, para 8,38 milhões de toneladas. Na comparação com 2015, a retração foi de 10,7%.

Outro foco de preocupação do setor é o cenário político, com eleições indefinidas, o que faz com que empresários represem investimentos. “Ainda existe dúvida sobre a campanha presidencial. Se em agosto tivermos uma perspectiva de vitória de um candidato populista, sofreremos um banho de água fria”, diz Loureiro.

Ele acredita que essa incerteza mantém paralisados os investimentos de maior valor. “Definitivamente, as incertezas com relação às eleições fazem com que os aportes de longo prazo ainda estejam paralisados. Só surgem aqueles em que há certeza de retorno”, conclui.

Alento

Alento

Loureiro lembra, porém, que o desempenho do setor siderúrgico ocorre sobre uma base fraca, o que deve servir para inflar os números das usinas. “O consumo de aço no Brasil está em níveis muito baixos. Planos estão com queda de 30% em relação aos patamares de 2010.”

Além disso, se o câmbio se mantiver nos níveis atuais, mais perto dos R$ 3,50 do que dos R$ 3,00, o prêmio das importações recua, mitigando o receio dos produtores de que a China vá desaguar o seu excesso de capacidade – hoje em 405 milhões de toneladas – no Brasil, por conta das barreiras impostas pelos EUA. “O aumento do dólar afasta as importações, que estão sendo mais usadas para os produtos que faltam no mercado interno. O prêmio, neste contexto, é praticamente zero principalmente para o laminado a quente”, alega Loureiro.

Nesta quinta-feira, o dólar fechou cotado a R$ 3,4760 na compra e a R$ 3,4767 na venda.

Para o futuro, o presidente do IABr torce para que o governo tenha uma postura mais firme na defesa comercial do País. “Se o Ministério da Fazenda quer abrir o mercado para exportação, que nos dê isonomia tributária”, conclui Lopes.

 

Fonte: DCI

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