MATÉRIAS

Brasília não necessita de defesa. Sua realidade se impõe acima de qualquer discurso. Como escreveu Paulo Leminski, em seu Catatau: Brasília – alegria dos mapas.

Nestes tempos sombrios de nosso país, retoma-se a crítica sobre a inoportunidade, ou o erro, da transferência da capital do Rio de Janeiro para o cerrado do planalto central. Argumento conformista, com pretensão avant-garde, no qual se pretende estabelecer paralelo entre o desmonte da cidade do Rio de Janeiro e a mudança da capital.

A poeira da memória nos faz esquecer os embates e revoltas com a mudança da capital da Bahia para o Rio, também na ocasião considerada um erro. Junto com o deslocamento para o novo e belo recinto da baía da Guanabara, veio também o sistema escravocrata e a naturalização da violência, implícita em sua organização. O paralelo é possível entre Rio-Brasília e Bahia-Rio. A arquitetura ou o novo recinto geográfico não significa uma mudança das formas de organização ou gestão de uma sociedade.

Não me surpreenderia se algum reacionário com ar de progressista propusesse o retorno da capital à baía da Guanabara, por ser lá seu local natural. Bobagem esta ideia. As aldeias Tupinambás eram assentamentos padronizados. Os desenhos circulares dos Bororos são planejados.

Todas as cidades sempre foram ou serão artificiais.

Quando ouço estes argumentos, lembro do inventor de Brasília dizendo ser todo o excesso a negação do fim proposto: “Brasília é maior e mais forte do que foi minha imaginação”. Ou ainda Clarice Lispector: “Brasília é artificial. Tão artificial como deveria ter sido o mundo quando foi criado”.

Brasília é o artefato urbano mais importante da América desde a implantação da cidade de Teotihuacán, no México, construída simultaneamente ao Pathernon.

Ela constitui o desejo de ocupar a terra, uma ocupação que o povo brasileiro perseguiu, escavou, elevando e prolongando a arquitetura na paisagem. O resultado de uma vontade de ocupar a terra mediante a construção do vazio. Tudo se organiza a partir de dois eixos, um vazio principal. Trata-se de um rigor que não admite debilidades nem ajuste.

Ali a arquitetura se confronta com problemas imutáveis da civilização. O que se consegue não é impor sua presença mediante os elementos que compõe o espaço, se não uma poderosa construção do vazio que marca os elementos. Sua rodoviária é o sublime exemplo.

A simples existência de Brasília incita a reflexão. Faz-nos pensar o Brasil, a América e nosso lugar nela. Lúcio Costa conseguiu isto, um mérito nada insignificante.

Mario Pedrosa dizia, “o que leva um homem com uma imaginação sair de casa e propor a uma coletividade uma utopia?” Isto só já valeu a pena.

Para superar o pensamento mesquinho, sombrio e interesseiro que domina o Brasil e o mundo, só uma utopia revolucionária como Brasília. E as novas cidades que propusermos, pois teremos de fazê-lo, sempre serão o resultado dos atritos e contradições de nossa realidade crua e cruel de uma sociedade excludente e segregadora. A arquitetura é, assim, inseparável da formação da civilização e um fato permanente, universal e necessário.

Fonte: Archdaily 


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