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Polo da arquitetura mundial, o Porto receberá exposição de brasileiros

Não é de hoje que Portugal se tornou um dos mais relevantes polos da arquitetura mundial. Desde a geração de Fernando Távora (1923-2005) e Álvaro Siza, passando por seus sucessores Eduardo Souto Moura e João Carrilho da Graça e desembocando em novas gerações repletas de nomes de relevo, o país desenvolveu nessa área uma produção forte e original.

Ainda que o reconhecimento internacional tenha vindo tardiamente –o prêmio Pritzker para Siza, que ajudou a deslanchar o processo, é de 1992–, deu-se com grande intensidade. Em 2011, Souto Moura também recebeu o Pritzker, principal prêmio da arquitetura mundial.

E se Portugal é esse polo global, parece razoável dizer que o Porto é a capital arquitetônica de Portugal. É lá, mais especificamente em Matosinhos (na zona metropolitana da cidade), que foi fundada em 2007 a Casa de Arquitetura, principal entidade do ramo no país, prestes a se tornar um dos grandes centros de documentação e difusão da disciplina no mundo –inserido em um restrito círculo de instituições como o Centro Canadense de Arquitetura (CCA) e o Instituto Holandês de Arquitetura (NAI).

Após anos sediado em uma pequena casa, o órgão não governamental abrirá em novembro as portas de seu novo espaço, com 5.000 m² dentro de um edifício em fase final de restauração –uma obra com custo de cerca de R$ 28 milhões.

Segundo o diretor Nuno Sampaio, "o maior objetivo é que o grande público possa ter uma compreensão maior do papel do arquiteto na sociedade".

BRASIL NO PORTO

Na inauguração de sua nova sede, a casa acolherá uma mostra sobre a relação entre a arquitetura e os poderes econômico, religioso, social, midiático e tecnológico, entre outros. Uma segunda exposição, já apresentada em Lisboa e Paris, trata da produção arquitetônica portuguesa no último meio século, desde a Revolução dos Cravos (1974) até hoje.

Ainda em 2018, uma grande mostra dedicada à arquitetura brasileira ocupará a galeria principal da instituição. Com curadoria de Guilherme Wisnik e Fernando Serapião, a exposição terá cerca de 80 projetos realizados entre os anos 1920 e os dias de hoje.

Estarão lado a lado trabalhos de nomes consagrados, como Gregori Warchavchik, Oscar Niemeyer, Lina Bo Bardi e Paulo Mendes da Rocha, e de expoentes de gerações mais novas, como Angelo Bucci, Carla Juaçaba e os escritórios MMBB, Apiacás e Arquitetos Associados. A exposição também integra um projeto maior de formação de acervo, já que grande parte do material exibido –desenhos e maquetes originais– ficará guardada nos arquivos da casa.

RESTAURO CUIDADOSO

Foi inaugurada em junho a Galeria da Biodiversidade, um museu de ciência inovador que cruza biologia e história natural. Com plano museológico do escritor e físico espanhol Jorge Wagensberg, criador da celebrada CosmoCaixa, em Barcelona, a galeria ocupa a recém-revitalizada Casa Andresen, situada dentro do Jardim Botânico.

O projeto de restauração do edifício, um palácio construído em 1875, é assinado por Nuno Valentim, 46, um dos arquitetos que têm ganhado destaque no país nos últimos anos. Valentim, ao lado de colaboradores de seu escritório, é também autor do mais recente projeto de revitalização do emblemático Mercado do Bolhão –já foram três propostas que não saíram do papel nas últimas décadas.

O mais importante mercado municipal do Porto ocupa uma construção do século 19 e deve entrar em obras no início de 2018.

Assim como na Casa Andresen, o projeto de Valentim não propõe mudanças radicais na estrutura, mas um restauro cuidadoso pautado em uma avaliação do que é ou não funcional no edifício. "Em uma obra de restauro, se uma pessoa disser que não percebeu bem onde o arquiteto interveio, mas percebeu que ele esteve ali, para mim é o maior elogio que se pode fazer", diz ele.

BIENAL EM SERRALVES

De uma geração ainda mais nova que a de Valentim são os arquitetos convidados para colaborar com a itinerância da 32ª Bienal de São Paulo, que tem versão reduzida exposta no Porto até outubro.

A mostra chega à Fundação Serralves, projetada por Siza, com trabalhos de 14 artistas participantes do evento paulistano.

Além de se espalharem pelo edifício, as obras ocupam pavilhões desenhados por jovens arquitetos portuenses para os jardins da fundação. Cinco escritórios de profissionais com menos de 40 anos foram convidados para conceber os espaços que abrigam trabalhos de Jonathas de Andrade, Priscila Fernandes, Barbara Wagner e Benjamin de Burca, entre outros.

Assim, a Escola do Porto, como é chamada a corrente arquitetônica surgida na cidade, continua gerando frutos.

 

Redação original, Folha de São Paulo.


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