Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010 Busca:
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Obra24horas > Entrevistas > Entrevistado: Adilson Costa Macedo

“Há muitos planejamentos e poucos projetos urbanos em São Paulo”

 

Adilson Costa Macedo

 

O Plano Diretor da cidade de São Paulo, em vigor desde 2002, é um assunto tão complicado que muita gente não tem paciência para entendê-lo. Mas da mesma forma que é um tema complexo, é de extrema importância para o dia a dia da cidade e de quem mora nela. Esse é um dos problemas fundamentais do Plano Diretor, que possui informações essenciais e que podem interferir profundamente na vida de muitas pessoas. E agora, as discussões em torno desse tema voltaram a acontecer na Câmara Municipal da capital paulista. De um lado, o setor imobiliário tenta pressionar o poder público para tentar liberar mais espaço para promover seus empreendimentos na cidade; do outro, moradores de bairros, principalmente bairros consolidados de casas, que tentam resistir à verticalização dizendo “chega de prédios, isso provoca trânsito e congestionamento”.
 
Evitar a fuga de moradores do centro da capital para a periferia e municípios da Grande São Paulo é um dos principais objetivos do Plano Diretor. A saída apontada pelo projeto é diminuir os deslocamentos entre casa e trabalho, dando condições para a criação de polos de emprego em outras zonas e oferecendo incentivos financeiros para imóveis no centro e ao longo da linha do trem. A tarefa, porém, não é simples, uma vez que a tendência dos últimos 30 anos é o esvaziamento do centro. Desde 1980, cerca de 180 mil paulistanos deixaram o local. E a região deve perder mais 26 mil moradores em dez anos, segundo projeção da Fundação Seade, com base nos censos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Bairros da periferia, por sua vez, podem tornar-se o lar de mais 850 mil pessoas até 2020.
 
Considerado um dos profissionais mais respeitados do meio, o arquiteto e urbanista Adílson Costa Macedo, professor-doutor da Universidade de São Paulo (FAU/USP) e responsável pelo escritório LOCUM Arquitetura e Urbanismo, conversou com o Portal Obra24horas sobre o projeto do Plano Diretor de São Paulo. Confira nossa entrevista!
 
Portal Obra24horas: O projeto de revisão do Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo (PL 671/2007), em tramitação na Câmara desde outubro de 2007, vem causando muitas polêmicas entre arquitetos e urbanistas da cidade. Qual a sua opinião sobre o projeto?
Adilson Costa Macedo: É bom que cause polêmica não só entre arquitetos e urbanistas como entre os demais grupos de interesse: associações de moradores, vereadores, empreendedores e outros. Considero o plano bom, aberto para planos setoriais capazes de enriquecer e dar cor local para as diretrizes gerais.
 
Portal Obra24horas: Há quem diga que apenas incorporadoras estão sendo beneficiadas com o projeto. O fato de não haver participação popular no que está sendo proposto pode tornar o Plano Diretor uma surpresa para a população?
Adilson Costa Macedo: O plano foi divulgado há bastante tempo e já houve diversas apresentações públicas. Empreendedores grandes ou pequenos, associações e indivíduos são partes de uma mesma sociedade. Estamos caminhando lentamente na direção de haver maior participação. A questão é que a participação de pessoas com menor nível de renda ainda é mais fraca.
 
Portal Obra24horas: O adensamento da cidade é uma das questões que vem sendo muito discutida pela mídia. A Prefeitura de São Paulo alega que a cidade deve aumentar o adensamento em áreas que já tenham infraestrutura. O senhor concorda?
Adilson Costa Macedo: Não, na medida em que isso sugerir adensar apenas (ou muito) o Centro. È certo que deve haver mais moradores na área denominada “Centro Expandido da Cidade”, até por conta do incentivo à habitação, proteção do patrimônio histórico, novos marcos culturais, comércio e serviços. A forma radial da cidade mostra isso, reforçada pela disponibilidade da infraestrutura. No entanto, deve-se valorizar novas centralidades nos bairros, também com habitação, comércio, serviços, instalações industriais compatíveis e com muita ênfase na identidade destes lugares.
 
Portal Obra24horas: Que tipo de problemas podem surgir a partir do incentivo à verticalização em regiões que já são consideradas saturadas, como é caso da Lapa, Tatuapé e Santo Amaro?
Adilson Costa Macedo: O adensamento aqui no Brasil pode ser diretamente associado à “verticalização”, devido à forte influencia do Urbanismo Moderno: “torres” isoladas em grandes áreas - Brasília – ou prédios recuados conforme nossa lei de zoneamento. Lapa, Tatuapé e Santo Amaro não são bairros saturados, apenas se observa grande concentração em alguns pontos. Se isso for combinado com projetos bons para novas áreas centralidades poderá gerar lugares urbanos de qualidade. Costumo dizer que em São Paulo há muito planejamento urbano, mas poucos projetos urbanos.

 

Entrevista para a jornalista Mércia Ribeiro, redatora do Portal Obra24horas

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